Técnico Roger Machado recebe Medalha Mérito Farroupilha

Numa das mais concorridas solenidades realizada em 2019 no Parlamento gaúcho, a entrega da Medalha do Mérito Farroupilha ao técnico de futebol Roger Machado, realizada no final da manhã desta sexta-feira (20) na Assembleia Legislativa, foi um momento em que o racismo, o preconceito e a desigualdade social foram colocadas em xeque, desnudadas, desmascaradas pelos oradores e pelo homenageado.


"Essa homenagem direcionada ao Roger é também uma homenagem a todos os homens e mulheres do Rio Grande e do Brasil que têm a coragem de se erguer contra a discriminação e o preconceito. Ressalto a palavra coragem, pois para defender essa pauta, uma pauta que não é simpática ao conjunto da sociedade, ao conjunto do Brasil raiz, é preciso ter firmeza, altivez e muita disposição em falar sobre um tema que muitos não querem ouvir", frisou o deputado Valdeci Oliveira, proponente daquele ato.


Por sua vez, o homenageado, que estava acompanhado de vários familiares, fez questão de ressaltar que para ele o futebol nunca foi um fim, mas um meio.


"Chutar a bola para dentro da rede é apenas uma parte disso. Para alguns política e futebol não se misturam, mas não falo da política partidária, falo de política como a arte de dialogar", ressaltou Roger, lembrando da sua famosa declaração durante uma coletiva de imprensa, em outubro passado, quando expôs seu posicionamento diante das diversas mostras de racismo no país.


"Recebi diversas mensagens pela coragem, mas coragem não é ausência de medo. Nesse momento pelo qual passamos no Brasil, adotar esse tipo de postura é um caminho que não tem volta", afirmou, sendo muito aplaudido pelo público presente.


Na ocasião da coletiva, entre outras questões, Roger pontuou que "na medida que a gente tem mais de 50% da população negra e a proporcionalidade não é igual, a gente tem que refletir e se questionar. Se não há preconceito no Brasil, por que os negros têm o nível de escolaridade menor que o dos brancos? Por que a população carcerária, 70% dela é negra? Por que quem morre são os jovens negros no Brasil? Por que os menores salários, entre negros e brancos, são para os negros?".

Para Roger, por mais que um problema "não nos atinja diretamente, temos o dever de olhar para aqueles que têm menos. É impossível imaginar que um país que foi construído por uma mão-de-obra escravizada, humilhada e subjugada, cujo modelo se repete hoje em dia de outras formas, ele possa ser de fato uma democracia racial. Para que possamos entender é preciso que olhemos para o passado, dialoguemos com esse passado para corrigirmos o nosso presente", afirmou, destacando que o Brasil é um país maravilhoso, mas que precisa deixar de negar que o racismo existe.


Para o técnico do Bahia, "o pior tipo de racismo é aquele que nos torna invisíveis. Se não dialogarmos, não iremos em frente", sustentou ao final de seu discurso. 


Texto: Marcelo Antunes Foto: Joaquim Moura